Crônicas do VCC

By Sérgio Olson Granata

Crônicas de um Aeromodelista Caipira Capítulo V

(Os capítulos I a IV se referem aos anos 1968 a 1975, mas ainda não foram escritos)

Ano 1976.

Desembarquei em Sampa para fazer cursinho no Anglo e na bagagem insistiram em me acompanhar um motor OS Max 35S, vestido por um aeromodelo Pagé (Conheço dois caras que construíram um Pagé: O próprio projetista Jorge Junqueira e Eu).

Aeromodelo construído com tecnologia caipira a partir de uma planta da revista SM (Sport Modelismo). Se eu me candidatava a ser engenheiro, o mínimo que eu podia fazer era ampliar uma planta descentemente.

Um modelo cativante. Bequilha dianteira, linhas futuristas, me apaixonei à primeira vista.

Dobradiças Dubro nos flaps e profundores (isso ainda ia render desavenças). Estabilizador, profundores e flaps nervurados e entelados. Hélice tri-pá de fabricação própria. O modelo mais "macio" que já pilotei, tinha a impressão de que voava sózinho.

No primeiro Domingo fui ao Ibirapuera e estava tendo prova de acrobacia.

-Posso voar?

-Pode! Paga a inscrição e compete na Mini-Fai!

-Quecatzodeporra é essa tal de "minifai"?

-Sómente manobras redondas, sem o 8 vertical, 8 na cabeça e o trevo de 4 folhas!

-Hummm ... sei!

-Sabe o quê Caipira? É pegar ou largar! E decide logo que a bagaça já vai começar!

-Já que estou aqui vamos voar! Seja o que Deus quizer e Santos Dumont ajudar!

Eu só não entendi porque um modelo de gente grande tinha que voar com um monte de "Mig" com motor sem escape, um tal de Fóquizzz 35.

"Ah é? Vocês querem guerra?". Tirei o escape do OS 35S e fui pra briga!

Não vou nominar bois nem vacas nessa crônica, mas o que segue me deixou até hoje com um gosto amargo de arrependimento.

Terminada a prova, os sabidos de plantão rodearam o Pagé e lascaram o veredicto:

- Motor OS com hélice tri-pá? Onde você quer chegar Caipira? Para ser bem sucedido você tem que usar FÓQUIZZZ 35 e hélice de fibra de vidro feitas pelo Fulano de Tal!

- Dobradiças nas partes móveis? Isso daí dá "flute"! Tem que costurar com fio dental!

Fico até hoje me indagando o que seria "flute"! Creio que seja algo como vibração ou flutuação dos flaps e profundores!

-Partes móveis nervuradas e enteladas? De onde você tirou estas ideias? Tem que usar madeira sólida para ter mais rigidez!

Eu ainda não era engenheiro, mas sabia de outras encarnações que estruturas treliçadas são mais rígidas que um pedaço de tora ... mas quem sou eu para discutir com o Papa da acrobacia de VCC?

-Se livra disso aí e faz um "Bluuueee Angel"! (Sim a pronúncia do expert era esta mesma, "blue" ... e não "blú"), O Sr. Ciclano te arranja uma planta por Cr$ 10,00!

Então começou o meu calvário. Precisava arranjar grana para comprar o tal de FÓQUIZZZ 35.

Um rapaz que tinha botado o olho no Pagé desde o momento que pisei na pista, levou a minha obra prima para casa com motor e tudo. Não me recordo por quanto, mas dava para eu iniciar a empreitada.

Consegui depois de muita insistência e várias cartas de recomendação dos bambambam, 2 Fox 35 na Loja Mobral. Sim, o filhodaputa de motor tinha status de puta de luxo, para conseguir levar tinha que ralar, e muito.

Hoje, olhando para as caixas de Fox na minha oficina, fico me indagando de onde vieram aqueles 2 motores sem caixa, sem manual, sem escapamento, enfiados num saquinho plástico de talher de restaurante ... Ããã ... Paraguai talvez?

Já no amaciamento dos Fox o arrependimento bateu. Ah que saudades do OS Max 35S!

Conseguir arranjar um escapamento no mercado negro também foi um parto. Parecia que estavam me fazendo um enorme favor. E não era nem de longe parecido com o original da Fox.

Construir o Blue Angel não foi difícil, mas me senti ridículo costurando os flaps e os profundores com fio dental.

Tempos depois entrei numa prova de gama completa e não fui tão mal, afinal eu era um piloto com status, tinha um Bluuueee Angel com motor FÓQUIZZZ 35.

Aí veio a faculdade e o aeromodelismo foi ficando meio que de lado. Ah ... só para constar, vendi um dos Fox com avião e tudo e comprei um violão. Tocar e cantar, enchendo a cara de cerveja no buteco da faculdade, dava mais prazer do que ficar debaixo de sol, girando que nem um peru, com dois fios de aço na mão, tentando fazer o avião se comportar como um cordeirinho.

Cinco anos se passaram e para comemorar a formatura, num domingo de sol, passei a mão no avião que sobrou e fui para o Ibirapuera.

Devia ter ficado em casa!

Pisei no gramado da pista, não deu tempo nem de por o avião no chão.

-Ô Matão! Onde cê pensa que vai com essa bagaça?

-????! Vou voar! Algum problema?

-Com essa peça de museu só lá na pista 2!

-Qual é a tua bambambam? Vocês me fizeram mudar de avião e motor, e agora vem me dizer que eu tô fora de época?

-É! Avião agora só com motor Super Tigre 46 ou 60!

-Aééé mesmo? E o que mais?

A essa altura eu já tinha corrido o olhar nos aviões no círculo da pista e comecei achar que ia ter um “distúrbio neuro-vegetativo”!

-Um avião imponente como o do fulano ali! Peça a ele para te vender a planta e constrói um!

- … !

-Aproveita que vai construir um avião de gente grande e usa dobradiças Dubro, viu? Esse fio dental costurando as partes móveis deixa os comandos muito duros!

-Mas … Vocês … não me disseram que … ???

-Esquece o que dissemos … Aproveita e coloca um balancim com rolamento … Fica joia … Muito preciso nas manobras!

Se o Fulton tivesse me visto ali naquele momento, teria reinventado o motor à vapor! A tampa da minha cabeça já soltava fumaça pelas juntas!

-Vende essa porcaria e se atualiza! Lá na loja do Beltrano tem um motor seminovo baratinho, você pode comprar por …

Não teve jeito e não deu nem pra disfarçar! Tive um chilique ali mesmo!

-VAITUDOCÊISTOMÁNOCÚ !!! NÃO VOU COMPRAR PORRA NENHUMA DE MOTOR !!! TÃO PENSANDO QUE SOU MATUSQUELA ???

Larguei avião e caixa de ferramentas ali mesmo na grama e fui pra lanchonete atrás de uma cerveja e ver se me amansava um pouco!

Não tinha começado a descer as escadas ainda, quando alguém lá da pista gritou:

-Matão !!! Compra também uma hélice Tri-pá !!!

- ……. !!!

Chifre de Capim

Foi lá em Matão em 1973 acho!

Campo de futebol no clube de campo da Bambozzi!

Aqueles chifrinhos de capim, o cabo enroscou na decolagem, eu corri para trás e não me dei conta de quanto me aproximei dos eucaliptos enfileirados na beirada do campo ... de repente ... TÓC!

Que mira ... bem no meio do eucalipto! O zigue-zague da Mobral com OS 20 fechou as asas e desceu como um lenhador canadense!

Se o eucalipto ainda estiver lá, o furo do spinner também deve estar!